sexta-feira, 20 de junho de 2008

Orai e Vigiai - Uma crônica.

Silvana bufou. O trânsito de sexta a tarde a irritava.
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Aliás, tudo a irritava. O calor, a chuva. O frio, a garoa. Como sempre, chegou em casa apressada. Thor, o cão labrador da família correu agradar sua dona, o rabo abanava de um lado a outro, ele estava feliz por revê-la.
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Silvana o ignorou, tinha pressa, vida de médium era assim. Perseverante e pontual. Disciplinada e dedicada. Não poderia atrasar-se. Entrou em casa ainda reclamando do trânsito.Banho , jantar leve, rua de novo. Era dia de reunião de desobsessão. Na rua da casa espírita, outra irritação. Não havia sequer uma vaga para que Silvana estacionasse o carro, teve que rodar dois quarteirões e voltar a pé. Parecia que tudo tentava impedi-la de chegar ao Centro.Passo apertado.
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Rosto franzido. Silvana algo mais irritada, cruza os umbrais da porta principal.
Antônio, o velho presidente do Centro a olha com doçura. Sabe que algo vai mal. A médium segue para a câmara de passe. Fechada. Tem gente lá dentro. Demora.
A hora passa. Mais uma irritação, ela quer trabalhar, quer ajudar, sabe que precisam dela ali, há anos trabalha nesse e noutros centros, há anos, pensa entrando na câmara. Um rápido autopasse, Ela também faz isso há anos, ela já sai automático. Encaminha-se apressada para a sala onde alguns trabalhadores já se encontram.
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Cumprimenta-os rapidamente. Lázaro, o doutrinador, Célia e Carla, médiuns de sustentação, Ana e Paula, passistas, César, o metido, e Onofre ,médiuns de desobsessão. Silvana se senta, um Pai Nosso desliza por sua mente.
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- Será que fechou o gás``. Santificado seja..`` Apagou as luzes ? O carro na rua, perigo...
Lázaro , o doutrinador apaga as luzes, desliza os olhos pela inquieta Silvana e lhe toca o ombro.
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- Célio, Onofre, hoje apenas vocês dois, há pouca gente. Silvana, Célia, Carla, vibrações.
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O rosto de Silvana arde. A irritação chega no auge, ela quase não se controla, se cala a custo.
Prece inicial, início das tarefas. O primeiro irmãozinho.
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-Bem-vindo , meu irmão- fala a voz serena de Lázaro.
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Sinta-se a vontade entre nós, fala ele com carinho O espírito , algo irônico começa a sorrir.
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- Adoro eles. Os que se acham intocáveis, infalíveis. Esses são os mais divertidos.
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- Mas o irmãozinho sabe que está no caminho errado.....
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- Eu não. Eu fui chamado.A arrogância e o orgulho deles me atrai. Essa soberbia de achar-se intocável, e não ser. Não admitir. Não pensar. Eu faço apenas o que eles me permitem, nada mais. Erra mais aquele que tem o conhecimento.
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- Mas você também possui o conhecimento.
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- Eu fui chamado, apenas isso. Posso deixá-los hoje, mas eles me chamarão amanhã. São pessoas de palavras e não pessoas de ações.
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Houve silêncio. Silvana sentiu o corpo se arrepiar. O coração parecia afogar-se em dor. A mente se esvaneceu e quando ela deu por si, a reunião havia terminado.
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No silêncio da sala, apenas a respiração de Silvana era percebida. Duas lágrimas rolaram pela face , agora, entristecida.
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- Orai e vigiai- falou Lázaro com a voz carinhosa de sempre.
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- Nós, os médiuns podemos ser alvo de muitos ataques se não mantivermos o equilíbrio, a fé e a vibração de amor. Não devemos nos orgulhar de nossa mediunidade e sim vigiar-nos sempre, para que ela não nos leve às quedas. Assim como o doente, os médiuns obsidiados necessitam do antídoto da dor. O amor.
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Quando o médium se desvia de seu verdadeiro caminho, mesmo não querendo, deixa uma porta aberta aos obsessores.
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- Orai e vigiai - repetiu Silvana lembrando-se que ela mesma se distanciara de seu principal objetivo quando passara a ver com orgulho e inveja, sua mediunidade.
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Sim, pensava ela no silêncio de suas lágrimas, aquele irmãozinho que viera obsidiava apenas os médiuns, poderia até mesmo tê-la obsidiado, se é que já não o estava fazendo. Silvana lembrou-se das discussões com os companheiros de seara, das irritações, da falta de controle, todos os sinais de uma perturbação para a qual ela insistia em fechar os olhos.
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- Eleve a vibração, ame e sobretudo vigie, para que nada de mal lhe aconteça - terminou Lázaro abraçando cada um de seus companheiros.
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Silvana deixou o centro mais calma naquela noite. Agora ela compreendia o que era deixar-se dominar pelo orgulho tolo da mediunidade, pela vaidade tola do trabalho. Mediunidade era amor, não medalhas para que colocasse no peito e bradasse aos povos. Era silêncio e resignação. O amor não era aquilo que ela vinha fazendo , era muito mais e somente agora ela compreendia que o antídoto para esse mal era o amor.
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Autora: Simone De Nardi
Fonte: http://www.geocities.com/jornalcem/